O ensaio que segue abaixo foi uma proposta de trabalho encaminhada pela professora Adelaide na segunda etapa do Gestar em Porto Alegre / RS, entre os dias 28 de setembro e 3 de outubro de 2009, sobre o filme "Línguas - Vidas em Português".
Ensaio sobre o filme “Línguas – Vidas em Português”
O presente ensaio visa refletir sobre a discussão possível em torno da linguagem, especialmente sobre os usos linguísticos ”como uma atividade sociointerativa desenvolvida em contextos comunicativos historicamente situados” (Marcuschi, 2008, P.61), que o filme “Línguas – Vidas em Português” de Victor Lopes proporciona.
Percebe-se nitidamente nos dizeres dos colaboradores do filme, o entendimento de que a língua não é matéria estática e nem homogênea, pelo contrário, ela é dinâmica e heterogênea, estando sempre sujeita a variações e mudanças. Assim, ela é heterogênea, varia e se ajusta de acordo com a região, com a situação sócio-comunicativa, com o grupo social, enfim. Seu real uso está no propósito de produzir sentidos.
Isso confirma-se no dizer de João Ubaldo Ribeiro, um dos colaboradores do filme em questão: “Se as línguas não mudassem, estaríamos todos falando latim.” Esta é prova real que a mudança e a variação são inerentes às línguas de todo o mundo conforme dizia Silva e Moura (2000).
As diversas variantes do português, demonstradas no filme, cujas pessoas falavam a mesma língua em diversos países, mas com características, dialetos peculiares do seu grupo social, da sua região também provam que é impossível a língua ser estática. Além do mais, há que se destacar que são justamente estas variedades linguísticas demonstradas no filme que identificam cada grupo social.
Nesse sentido, Antunes (2009), argumenta que a língua é um grande ponto de encontro de cada indivíduo com os seus antepassados, estando ela embutida na trajetória da memória coletiva do povo. Eis porque as pessoas se apegam a sua língua, ao jeito de falar do grupo no qual pertencem. É interessante notar ainda o que a mesma autora menciona ”... pela língua afirmamos: temos território; não somos sem pátria. Pela língua, enfim, recobramos uma identidade.” (Antunes, 2009, p.23).
Reportando-se para o filme, percebe-se na fala dos depoentes o quanto eles se orgulham de suas origens, o quanto têm clareza de sua identidade e quanta alegria demonstram em pertencerem a uma pátria cuja língua falada é a Língua Portuguesa. Vale ressaltar aqui a fala de um dos colaboradores “A língua traz saudade da terra, da família, das origens...”.
Na medida em que um indivíduo se identifica com sua língua e suas origens, ele passa a compreender melhor as outras pessoas que não pertencem ao seu grupo, respeitando-as e aprendendo com as mesmas, pois entende que a língua não é apenas um mero instrumento de comunicação, mas uma atividade de interação, carregada de sentimentos, valores e marcas culturais próprios de uma determinada comunidade social. A fala de um dos jovens depoentes no filme trouxe presente isso ao justificar que os jovens têm uma característica comum em todos os lugares. Esse jovem demonstrou reconhecimento da própria identidade, respeito ao diferente, buscando, ao mesmo tempo, algo em comum entre jovens de outras origens. Percebe-se, pois, no depoimento deste mesmo jovem que as pessoas se fazem entender quando a língua toca na alma, envolve, emociona, interage.
Um outro aspecto que o filme proporciona refletir é em relação ao preconceito linguístico. Sabe-se que durante muitos séculos tem-se valorizado e considerado como única modalidade “certa” a “norma culta” tida como a norma de prestígio no que tange às variantes linguísticas. Não era levado em conta a dinamicidade, variações e mudanças da língua. Embora já existam muitos estudos, e até mesmo reflexões nas escolas sobre o ensino da Língua Portuguesa numa perspectiva Sociolinguística, ainda percebe-se a existência de uma visão equivocada da língua de que há línguas estruturalmente melhores do que outras, mais ricas e complexas. Assim, verifica-se que a língua continua em nosso meio como um instrumento de poder, dominação e opressão. As camadas mais pobres, por sua vez, estão faladas a sofrer mais as consequências dessa dominação, uma vez que, assim como a distribuição de renda é injusta, a distribuição do saber também está muito aquém do que deveria ser para as classes mais pobres. Nesta mesma perspectiva o filme “Línguas-Vidas em Português” traz presente o depoimento de pessoas carentes, sobreviventes da miséria, como o exemplo o jovem Dinho (um dos depoentes no filme) que apesar de sonhar com melhores condições de vida, tinha consciência de sua triste realidade. Em seu depoimento Dinho disse que seria pai, revelando tristeza porque não teria condições de oferecer boas perspectivas de vida para o filho. “Plantei uma árvore sem água para regar.” (Fala de Dinho)
Dentre tantas outras reflexões suscitadas a partir do filme, é necessário destacar ainda a questão que diz respeito ao papel da escola diante disso tudo.
Vale aqui mencionar o que diz Scherre (2005) “Enfatizo: não sou contra a gramática normativa (nenhum linguista tem esta postura): sou contra, sim, sua veneração cega, que gera necessariamente seu uso equivocado, humilhando o ser humano por meio do que ele tem de mais característico: o dom de dominar a própria língua.” (Scherre, 2005, p.71).
Observa-se, contudo que a escola tem um grande desafio em relação ao ensino da língua. Ela precisa valorizar e respeitar a variedade linguística que o aluno traz consigo da sua comunidade e a partir dela ampliar o conhecimento linguístico desse estudante, sem incutir nele preconceitos contra outras variedades, nem contra a sua própria, conforme afirma Silva (2002).
De acordo com Silva (2002), o ensino da língua materna deve priorizar a aprendizagem de fatos linguísticos que facilitem a comunicação com pessoas de outros grupos sociais e que estimulem o uso de outras variedades, além de promover a aquisição de traços que permitam a integração de falantes de origem diversa.
Acredita-se que se a escola trabalhar a língua na perspectiva em que foi abordada neste ensaio, estará contribuindo para a formação de um cidadão consciente, crítico, sujeito de sua própria história e consequentemente de uma sociedade mais justa.
Bibliografia Consultada:
ANTUNES, Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
MARCUSCHI, Luís Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
SCHERRE, Maria M.P. Doa-se lindos filhotes de poodle: Variações linguísticas, mídias e preconceito. São Paulo: Parábola Editorial. 2005.
SILVA, Myriam Barbosa in Bagno, Marcos. Linguística das Normas. São Paulo: Edições Loyola. 2002.
O presente ensaio visa refletir sobre a discussão possível em torno da linguagem, especialmente sobre os usos linguísticos ”como uma atividade sociointerativa desenvolvida em contextos comunicativos historicamente situados” (Marcuschi, 2008, P.61), que o filme “Línguas – Vidas em Português” de Victor Lopes proporciona.
Percebe-se nitidamente nos dizeres dos colaboradores do filme, o entendimento de que a língua não é matéria estática e nem homogênea, pelo contrário, ela é dinâmica e heterogênea, estando sempre sujeita a variações e mudanças. Assim, ela é heterogênea, varia e se ajusta de acordo com a região, com a situação sócio-comunicativa, com o grupo social, enfim. Seu real uso está no propósito de produzir sentidos.
Isso confirma-se no dizer de João Ubaldo Ribeiro, um dos colaboradores do filme em questão: “Se as línguas não mudassem, estaríamos todos falando latim.” Esta é prova real que a mudança e a variação são inerentes às línguas de todo o mundo conforme dizia Silva e Moura (2000).
As diversas variantes do português, demonstradas no filme, cujas pessoas falavam a mesma língua em diversos países, mas com características, dialetos peculiares do seu grupo social, da sua região também provam que é impossível a língua ser estática. Além do mais, há que se destacar que são justamente estas variedades linguísticas demonstradas no filme que identificam cada grupo social.
Nesse sentido, Antunes (2009), argumenta que a língua é um grande ponto de encontro de cada indivíduo com os seus antepassados, estando ela embutida na trajetória da memória coletiva do povo. Eis porque as pessoas se apegam a sua língua, ao jeito de falar do grupo no qual pertencem. É interessante notar ainda o que a mesma autora menciona ”... pela língua afirmamos: temos território; não somos sem pátria. Pela língua, enfim, recobramos uma identidade.” (Antunes, 2009, p.23).
Reportando-se para o filme, percebe-se na fala dos depoentes o quanto eles se orgulham de suas origens, o quanto têm clareza de sua identidade e quanta alegria demonstram em pertencerem a uma pátria cuja língua falada é a Língua Portuguesa. Vale ressaltar aqui a fala de um dos colaboradores “A língua traz saudade da terra, da família, das origens...”.
Na medida em que um indivíduo se identifica com sua língua e suas origens, ele passa a compreender melhor as outras pessoas que não pertencem ao seu grupo, respeitando-as e aprendendo com as mesmas, pois entende que a língua não é apenas um mero instrumento de comunicação, mas uma atividade de interação, carregada de sentimentos, valores e marcas culturais próprios de uma determinada comunidade social. A fala de um dos jovens depoentes no filme trouxe presente isso ao justificar que os jovens têm uma característica comum em todos os lugares. Esse jovem demonstrou reconhecimento da própria identidade, respeito ao diferente, buscando, ao mesmo tempo, algo em comum entre jovens de outras origens. Percebe-se, pois, no depoimento deste mesmo jovem que as pessoas se fazem entender quando a língua toca na alma, envolve, emociona, interage.
Um outro aspecto que o filme proporciona refletir é em relação ao preconceito linguístico. Sabe-se que durante muitos séculos tem-se valorizado e considerado como única modalidade “certa” a “norma culta” tida como a norma de prestígio no que tange às variantes linguísticas. Não era levado em conta a dinamicidade, variações e mudanças da língua. Embora já existam muitos estudos, e até mesmo reflexões nas escolas sobre o ensino da Língua Portuguesa numa perspectiva Sociolinguística, ainda percebe-se a existência de uma visão equivocada da língua de que há línguas estruturalmente melhores do que outras, mais ricas e complexas. Assim, verifica-se que a língua continua em nosso meio como um instrumento de poder, dominação e opressão. As camadas mais pobres, por sua vez, estão faladas a sofrer mais as consequências dessa dominação, uma vez que, assim como a distribuição de renda é injusta, a distribuição do saber também está muito aquém do que deveria ser para as classes mais pobres. Nesta mesma perspectiva o filme “Línguas-Vidas em Português” traz presente o depoimento de pessoas carentes, sobreviventes da miséria, como o exemplo o jovem Dinho (um dos depoentes no filme) que apesar de sonhar com melhores condições de vida, tinha consciência de sua triste realidade. Em seu depoimento Dinho disse que seria pai, revelando tristeza porque não teria condições de oferecer boas perspectivas de vida para o filho. “Plantei uma árvore sem água para regar.” (Fala de Dinho)
Dentre tantas outras reflexões suscitadas a partir do filme, é necessário destacar ainda a questão que diz respeito ao papel da escola diante disso tudo.
Vale aqui mencionar o que diz Scherre (2005) “Enfatizo: não sou contra a gramática normativa (nenhum linguista tem esta postura): sou contra, sim, sua veneração cega, que gera necessariamente seu uso equivocado, humilhando o ser humano por meio do que ele tem de mais característico: o dom de dominar a própria língua.” (Scherre, 2005, p.71).
Observa-se, contudo que a escola tem um grande desafio em relação ao ensino da língua. Ela precisa valorizar e respeitar a variedade linguística que o aluno traz consigo da sua comunidade e a partir dela ampliar o conhecimento linguístico desse estudante, sem incutir nele preconceitos contra outras variedades, nem contra a sua própria, conforme afirma Silva (2002).
De acordo com Silva (2002), o ensino da língua materna deve priorizar a aprendizagem de fatos linguísticos que facilitem a comunicação com pessoas de outros grupos sociais e que estimulem o uso de outras variedades, além de promover a aquisição de traços que permitam a integração de falantes de origem diversa.
Acredita-se que se a escola trabalhar a língua na perspectiva em que foi abordada neste ensaio, estará contribuindo para a formação de um cidadão consciente, crítico, sujeito de sua própria história e consequentemente de uma sociedade mais justa.
Bibliografia Consultada:
ANTUNES, Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
MARCUSCHI, Luís Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
SCHERRE, Maria M.P. Doa-se lindos filhotes de poodle: Variações linguísticas, mídias e preconceito. São Paulo: Parábola Editorial. 2005.
SILVA, Myriam Barbosa in Bagno, Marcos. Linguística das Normas. São Paulo: Edições Loyola. 2002.
